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Por que é tão difícil aceitar nossas próprias contradições?

jfredericci
25 de set.
2 min de leitura

É possível sentir saudade de alguém e não querer voltar. Amar uma pessoa e sentir raiva dela. Desejar uma mudança e lamentar profundamente aquilo que será deixado para trás.

Mesmo assim, frequentemente tratamos sentimentos contraditórios como sinal de que alguma coisa precisa ser resolvida rapidamente.

Queremos descobrir qual sentimento é o verdadeiro.


Freud utilizou o conceito de ambivalência para pensar justamente a presença simultânea de afetos diferentes, inclusive opostos, dirigidos à mesma pessoa ou situação.


Isso aparece de maneiras muito comuns na vida.


Alguém pode amar os próprios pais e carregar ressentimentos importantes em relação a eles. Pode desejar profundamente uma relação e também precisar preservar sua autonomia. Pode querer ter filhos e sentir medo das transformações implicadas nessa escolha. Pode comemorar uma conquista e sentir tristeza pelo que precisou abandonar para alcançá la.


Esses sentimentos podem coexistir.


A dificuldade surge quando construímos uma exigência de coerência absoluta. Se amo, imagino que não deveria sentir raiva. Se escolhi ir embora, acredito que não deveria sentir saudade. Se desejei determinada conquista, penso que deveria estar simplesmente feliz quando ela acontece.


A vida psíquica é mais complexa.


Parte do sofrimento aparece justamente na tentativa de eliminar um dos lados da experiência para conseguir produzir uma versão organizada de nós mesmos.

Quero saber exatamente o que sinto. Quero ter certeza da decisão. Quero descobrir se desejo ficar ou partir.


Às vezes, existem razões importantes sustentando os dois movimentos.


Uma análise pode abrir espaço para escutar essas contradições sem exigir uma resposta imediata. Em vez de procurar qual sentimento merece permanecer, torna se possível investigar de onde cada um deles vem, o que expressa e como participa daquela experiência.


Isso também modifica a maneira como tomamos decisões.


Reconhecer a ambivalência não significa permanecer indefinidamente paralisado. Significa conseguir decidir sabendo que uma escolha pode carregar ganhos, perdas, alívio, medo e saudade ao mesmo tempo.


Talvez parte do amadurecimento psíquico aconteça quando conseguimos abandonar a expectativa de sermos perfeitamente coerentes.


Somos atravessados por experiências, desejos e vínculos diferentes. Algumas dessas forças caminham em direções distintas.


Aceitar essa complexidade permite uma relação mais verdadeira com aquilo que sentimos.

 
 
 

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