Por que algumas pessoas não conseguem dormir?
Dormir parece uma atividade simples até o sono desaparecer.

O corpo está cansado, o dia terminou, tudo indica que seria hora de descansar. Ainda assim, alguma coisa permanece desperta.
No livro A Erótica do Sono, o psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira propõe uma relação interessante entre a capacidade de dormir e a capacidade de confiar.
Essa ideia ajuda a perceber que dormir envolve muito mais do que cansaço.
Para adormecer, precisamos suspender temporariamente nossa relação com o mundo. Paramos de responder, produzir, observar e controlar o que acontece ao redor. Durante algumas horas, aceitamos não estar no comando.
Para algumas pessoas, esse recolhimento pode ser difícil.
A mente continua acompanhando problemas, antecipando situações, refazendo conversas ou planejando o dia seguinte. Existe uma espécie de vigilância que permanece funcionando mesmo quando já não há nada imediato para resolver.
A noite também produz uma condição particular. Durante o dia, trabalho, compromissos, conversas, notificações e tarefas ocupam boa parte da atenção. Quando tudo silencia, aquilo que encontrou pouco espaço ao longo do dia pode aparecer.
Preocupações, conflitos e angústias passam a ser escutados com maior intensidade.
Por isso, diante de uma insônia persistente, a psicanálise pode investigar também o que permanece acordado junto com aquela pessoa.
O que parece perigoso em relaxar? O que precisa continuar sendo acompanhado? Que pensamentos aparecem justamente quando as distrações diminuem? Que relação existe entre descanso e perda de controle?
Essas perguntas não oferecem uma explicação única para a insônia. Existem diversas causas físicas, ambientais e psíquicas para dificuldades de sono, e quadros persistentes também merecem avaliação médica.
A contribuição da psicanálise está em investigar o sentido particular que a impossibilidade de repousar pode adquirir na vida de alguém.
Quando conflitos e angústias conseguem encontrar palavras, algo da tensão permanente pode começar a se transformar.
Talvez dormir envolva também uma experiência bastante profunda: sentir que, por algumas horas, podemos deixar o mundo seguir sem nossa vigilância.
Referências bibliográficas
PEREIRA, Mario Eduardo Costa. A Erótica do Sono.
FREUD, Sigmund. Suplemento metapsicológico à teoria dos sonhos. 1917.





Comentários